Esses dias, assistindo a uma entrevista de Elisa Lucinda, fiquei pensando na força de uma palavra quando ela nasce de um lugar verdadeiro.
Elisa fala de sua terra, de sua identidade, de sua gente. E eu pensei na minha aldeia.
Porque é dela que eu parto.
Daquilo que conheço, do que vivi, das coisas que me acontecem. Da minha rua, das minhas memórias, das pequenas histórias que, à primeira vista, parecem só minhas.
Mas escrever é descobrir que o particular também pode ser universal.
Quando falo da minha realidade, alguém se reconhece.
E quando o outro se reconhece, a minha palavra já não é somente minha.
Para mim, é aí que a escrita se torna um ato poelítico: poesia que nasce da vida, mas que também olha para ela, questiona, provoca e pode transformar.
Foi pensando nisso que voltei ao Manifesto ao Cultivismo.
Arte, cultura, educação e filosofia: quatro caminhos que se encontram na palavra. A arte que expressa, a cultura que guarda e compartilha, a educação que forma e a filosofia que provoca.
E a poesia, nessa visão, não precisa apenas ser bonita. Precisa carregar sentido. Precisa ter uma mensagem capaz de encontrar o outro.
Foi isso que pensei ao ouvir Elisa.
Sua palavra nasce da vida, mas não fica presa a ela. Ganha voz, corpo, pensamento. Sai da sua aldeia e encontra outras aldeias.
A poesia tem essa força: falar de onde viemos sem deixar de conversar com o mundo.
Eu falo da minha aldeia.
Falo de mim, do que vejo, do que vivo.
E quando a minha palavra encontra você, ela já não é só minha.
Ela ganhou mundo.