Os 10 melhores poemas de César Vallejo: poesia, dor e humanidade

Os 10 melhores poemas de César Vallejo: poesia, dor e humanidade

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Os 10 melhores poemas de César Vallejo: poesia, dor e humanidade

Poucos poetas conseguiram transformar a experiência humana em poesia com a intensidade de César Vallejo. Nascido em Santiago de Chuco, no Peru, em 1892, o escritor tornou-se uma das vozes fundamentais da poesia latino-americana do século XX.

Em seus versos encontramos a dor, a pobreza, a família, a solidão, o amor, a morte, a desigualdade, a fé e a solidariedade. Ao mesmo tempo, Vallejo foi um extraordinário experimentador da linguagem, especialmente em Trilce, publicado em 1922. Sua obra atravessou gerações justamente porque parte de experiências particulares para alcançar questões profundamente universais. Los heraldos negros e Trilce estão entre seus livros fundamentais, enquanto poemas como “Pedra negra sobre uma pedra branca” e “Um homem passa com um pão ao ombro” integram sua produção posterior.

Escolher os dez melhores poemas de César Vallejo é, naturalmente, uma tarefa subjetiva. Esta seleção do Café com Poemas procura reunir diferentes momentos de sua produção e apresentar ao leitor um pouco da extraordinária humanidade presente em sua poesia.

1. Os mensageiros negros

Há golpes na vida, tão fortes… Eu não sei!
Golpes como do ódio de Deus; como se diante deles
a ressaca de tudo o que sofremos
se acumulasse na alma… Eu não sei!

São poucos; mas existem… Abrem valas escuras
no rosto mais feroz e no dorso mais forte.
Serão talvez os potros de bárbaros Átilas;
ou os mensageiros negros que a Morte nos envia.

São as quedas profundas dos Cristos da alma,
de alguma fé adorável que o Destino blasfema.
Esses golpes sangrentos são os estalos
de algum pão que se queima à porta do forno.

E o homem… Pobre… pobre! Volta os olhos, como
quando sobre o ombro alguém nos chama com uma palmada;
volta os olhos enlouquecidos, e tudo o que viveu
se acumula, como uma poça de culpa, no olhar.

Há golpes na vida, tão fortes… Eu não sei!

2. O pão nosso

Para Alejandro Gamboa

Bebe-se o café da manhã… A terra úmida
do cemitério cheira a sangue amado.
Cidade de inverno… A mordaz passagem
de uma carroça que parece arrastar
uma emoção de jejum acorrentada!

Quisera bater a todas as portas,
e perguntar por não sei quem; e depois
ver os pobres e, chorando em silêncio,
dar pedacinhos de pão fresco a todos.
E saquear dos ricos seus vinhedos
com as duas mãos santas
que, num golpe de luz,
voaram desprendidas da Cruz!

Pálpebra da manhã, não te levantes!
O pão nosso de cada dia nos dai,
Senhor…!

Todos os meus ossos são alheios;
talvez eu os tenha roubado!
Eu vim tomar para mim aquilo que talvez estivesse
destinado a outro;
e penso que, se eu não tivesse nascido,
outro pobre beberia este café!
Sou um mau ladrão… Para onde irei!

E nesta hora fria, em que a terra
transcende a pó humano e é tão triste,
eu quisera bater a todas as portas,
e pedir a não sei quem perdão,
e fazer para ele pedacinhos de pão fresco
aqui, no forno do meu coração…!

3. Os anéis fatigados

Há vontade de voltar, de amar, de não partir,
e há vontade de morrer, combatido por duas
águas que se encontram e jamais formarão um istmo.

Há vontade de um grande beijo que amortalhe a Vida,
que termina na África de uma agonia ardente,
suicida!

Há vontade de… não ter vontade, Senhor;
a ti aponto com o dedo deicida:
há vontade de nunca ter tido coração.

A primavera retorna, retorna e partirá. E Deus,
curvado no tempo, repete-se e passa, passa
carregando a espinha dorsal do Universo.

Quando as têmporas tocam seu lúgubre tambor,
quando me dói o sonho gravado num punhal,
há vontade de permanecer plantado neste verso!

4. Pedra negra sobre uma pedra branca

Morrerei em Paris sob um aguaceiro,
num dia do qual já guardo a lembrança.
Morrerei em Paris — e não recuo —
talvez numa quinta-feira, como hoje, de outono.

Será quinta-feira, porque hoje, quinta-feira, em que escrevo
estes versos, coloquei os úmeros
de mau jeito e, jamais como hoje, voltei,
com todo o meu caminho, a me ver sozinho.

César Vallejo morreu; batiam nele
todos, sem que ele lhes fizesse nada;
batiam forte com um pau e forte

também com uma corda; são testemunhas
as quintas-feiras e os ossos úmeros,
a solidão, a chuva, os caminhos…

5. Trilce XIII

Penso em teu sexo.
Simplificado o coração, penso em teu sexo,
diante do rebento maduro do dia.
Apalpo o botão da felicidade, está maduro.
E morre um sentimento antigo
degenerado em cérebro.

Penso em teu sexo, sulco mais prolífico
e harmonioso que o ventre da Sombra,
ainda que a Morte conceba e dê à luz
o próprio Deus.

Oh Consciência,
penso, sim, no bruto livre
que goza onde quer, onde pode.

Oh escândalo de mel dos crepúsculos.
Oh estrondo mudo.

Odumodnortse!

6. Trilce XXVIII

Só agora almocei, e não tive
mãe, nem súplica, nem “sirva-se”, nem água,
nem pai que, no eloquente ofertório
dos pratos, perguntasse por minha demora
com sua imagem nos maiores broches do som.

Como eu iria almoçar. Como poderia me servir
de pratos tão distantes dessas coisas,
quando o próprio lar já se partiu,
quando nem sequer mãe surge aos lábios.
Como eu iria almoçar coisa alguma.

À mesa de um bom amigo almocei
com seus pais recém-chegados do mundo,
com suas velhas tias que conversam
num recinto tordilho de porcelana,
sussurrando por todos os seus alvéolos viúvos;
e com talheres francos de alegres pífaros,
porque estão em sua casa. Ah, que graça!
E doeram-me as facas
desta mesa em todo o paladar.

O jantar dessas mesas, onde se prova
amor alheio em vez do próprio amor,
transforma em terra o bocado que não oferece
a MÃE;
transforma em golpe a dura deglutição; o doce,
em fel; em óleo fúnebre, o café.

Quando o próprio lar já se partiu
e o lar fechado de outro se abre,
como se não fosse melhor
ficar de pé.

7. Poema para ser lido e cantado

Sei que existe uma pessoa
que me procura em sua mão, dia e noite,
encontrando-me, a cada minuto, em seu calçado.
Ignora que a noite está enterrada
com esporas atrás da cozinha?

Sei que existe uma pessoa composta de minhas partes,
a quem integro quando minha cintura vai
cavalgando em sua exata pedrinha.
Ignora que ao seu cofre
não retornará a moeda que saiu com seu retrato?

Conheço o dia,
mas o sol me escapou;
conheço o ato universal que realizou em sua cama
com coragem alheia e essa água morna, cuja
frequência superficial é uma mina.
Será acaso tão pequena essa pessoa
que até seus próprios pés assim a pisam?

Um gato é a fronteira entre ela e eu,
bem ao lado de sua tigela de água.
Vejo-a nas esquinas, abre-se e fecha-se
sua veste, antes palmeira interrogante…
Que poderá fazer senão mudar de pranto?

Mas ela me procura e procura. É uma história!

8. Um homem passa com um pão ao ombro

Um homem passa com um pão ao ombro.
Vou depois escrever sobre meu duplo?

Outro se senta, coça-se, tira um piolho da axila, mata-o.
Com que coragem falar da psicanálise?

Outro entrou em meu peito com um pau na mão.
Falar depois de Sócrates ao médico?

Um coxo passa dando o braço a uma criança.
Vou depois ler André Breton?

Outro treme de frio, tosse, cospe sangue.
Caberá falar algum dia do Eu profundo?

Outro procura na lama ossos, cascas.
Como escrever depois sobre o infinito?

Um pedreiro cai de um telhado, morre e já não almoça.
Inovar depois o tropo, a metáfora?

Um comerciante rouba um grama no peso de um cliente.
Falar depois da quarta dimensão?

Um banqueiro falsifica seu balanço.
Com que cara chorar no teatro?

Um pária dorme com o pé às costas.
Falar depois a alguém de Picasso?

Alguém vai a um enterro soluçando.
Como depois ingressar na Academia?

Alguém limpa um fuzil em sua cozinha.
Com que coragem falar do além?

Alguém passa contando nos dedos.
Como falar do não-eu sem dar um grito?

9. Trilce LXXV — Estais mortos

Estais mortos.

Que estranha maneira de estar mortos. Qualquer um diria
que não estais. Mas, na verdade, estais mortos, mortos.

Flutuais nadamente atrás dessa membrana que, pendendo
do zênite ao nadir, vai e vem de crepúsculo em crepúsculo,
vibrando diante da caixa sonora de uma ferida que a vós
não dói. Digo-vos, pois, que a vida está no espelho,
e que vós sois o original: a morte.

Enquanto a onda vai, enquanto a onda vem, quão impunemente
se permanece morto. Somente quando as águas se quebram
nas margens confrontadas e se dobram e tornam a dobrar,
então vos transfigurais e, acreditando morrer, percebeis
a sexta corda que já não é vossa.

Estais mortos, sem jamais terdes vivido antes. Qualquer um
diria que, não sendo agora, em outro tempo fostes.
Mas, na verdade, sois os cadáveres de uma vida que nunca existiu.
Triste destino: não ter sido senão mortos desde sempre.
Ser folha seca sem jamais ter sido verde.
Orfandade das orfandades.

E, no entanto, os mortos não são, não podem ser cadáveres
de uma vida que ainda não viveram.
Eles morreram sempre de vida.

Estais mortos.

10. Trilce VII

Segui sem novidade pela rua sulcada
que conheço tão bem. Tudo sem novidade,
de verdade. E ancorei em coisas assim,
e fui passado.

Dobrei a rua pela qual raras
vezes se passa bem, saída
heroica pela ferida daquela
esquina viva, nada pela metade.

São as grandezas,
aquele grito, a claridade do confronto,
a barra submersa em sua função de
já!

Quando a rua está olheirenta de portas
e proclama desde púlpitos descalços
transamanhecer as salvas nos dobres.

Agora formigas minuteiras
entram adocicadas, adormecidas, apenas
dispostas, e se estropiam,
pólvoras queimadas, alturas de 1921.

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César Vallejo: poesia e humanidade

Ler César Vallejo é entrar em contato com uma poesia que não procura simplificar a experiência humana. Seus poemas atravessam a dor, a fome, a família, a ausência, o desejo, a injustiça, a morte e a solidariedade, ao mesmo tempo em que desafiam a própria linguagem.

De Los heraldos negros a Trilce e Poemas humanos, Vallejo construiu uma poesia capaz de ser profundamente pessoal e, ao mesmo tempo, universal. Sua obra permanece viva porque continua fazendo uma pergunta essencial: o que significa ser humano diante da dor — nossa e dos outros?

Autor dos poemas: César Vallejo (1892–1938)
Seleção: Café com Poemas
Tradução para o português: equipe da Agência Evidencie — Marketing para Escritores.

Nota editorial: As versões em português apresentadas nesta seleção foram traduzidas pela equipe da Agência Evidencie — Marketing para Escritores a partir dos textos originais em espanhol, preservando-se, tanto quanto possível, a construção poética e as particularidades da linguagem de César Vallejo. Os originais foram conferidos em edições e acervos que reúnem Los heraldos negros, Trilce e Poemas humanos.

Sobre o Autor

Leandro Flores

Leandro Flores administrator